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(Conto) O Capitão de Piltover


Espero que gostem deste conto! O escrevi com carinho, e agradeceria demais se pudessem dar algum tipo de feedback!

 

O Capitão de Piltover

Piltover.png

 

- Eu preciso disso para hoje! – Rosnou. – Você entendeu?

- Hoje eu não posso. – Retrucou com excessiva timidez, os olhos nos pés. – Eu tenho um compromisso...

- Então chegue mais cedo amanhã! – Deu dois passos impacientes, colocando um grande calhamaço de papéis sobre a pequena mesa. – Eu preciso disso para amanhã às 10! Você é responsável pela parte burocrática dos Vigias, e só por isso! Não estou pedindo que vá para as ruas arriscar sua vida nem desça ao Sumidouro para bater em Viginautas! Só quero a porcaria da papelada pronta! Você entendeu?

- Entendi.

- Melhor assim! – Respondeu com uma falsa satisfação. Antes de sair ainda soltou um último xingo. – Inútil do caralho.

               Quando a porta bateu nervosamente, Morag encarou a mais nova papelada que teria que cuidar. Era apenas mais um fim de expediente para ele. O chefe dos vigias passava em sua sala e lhe entregava algum tipo de papelada urgente, lhe dirigia um xingamento e saia irritado. Amanhã o ciclo recomeçaria. Mais um dia, mais uma humilhação.

                Morag aprendeu a não se importar. Ele ia embora com a mesma rapidez com que chegava. Mas naquele fim de tarde se sentiu especialmente infeliz. Talvez fosse a grande papelada amontoada em sua mesa estreita, talvez fossem as paredes empoeiradas ainda em concreto por fazer, talvez fosse sua sala pequena e extremamente apertada com apenas uma janela quadrada adornada com partes de metal e alta demais para proporcionar uma vista digna da cidade.

                Talvez fosse tudo isso junto; mas naquele dia Morag se sentiu especialmente solitário. Pegou um lenço no bolso e passou na cabeça careca. Estava suado. Aquela saleta fazia um calor infernal.

 Um relógio próximo badalou: Seis horas da tarde. Fim do expediente. Ele se levantou, atravessou os intermináveis corredores e desceu as longas escadas do Quartel dos Vigias de Piltover, enfrentou silenciosamente os olhares pouco amistosos de seus pares e ganhou à rua.

                Pegou seu fiel relógio de bolso. Ele marcava seis e quarenta da tarde. Ele estava sempre adiantado, então deviam ser seis e vinte. Apressou o passo na direção da Mercearia do Velho Explorador, um antigo viajante que no crepúsculo de sua existência abriu uma venda de alimentos. Ele nunca tinha visto o Velho Explorador, apenas sua filha. Mulher arrogante, com lábios feios e que usava uma cartola alta de péssimo gosto.

                - O que vai ser hoje? – Ela sempre perguntava. Sempre com nenhuma gentileza.

                - Quatro fardos de pão. Sete enlatados de atum defumado. Cinco sacos de maçãs verdes e mais cinco de laranjas. Dez pacotes de biscoitos amanteigados de trigo. Dois galões de água e... – Ele pensou por um instante. – E um saquinho de chá de folha-douro, por favor.

                - Todo dia isso? Um elevador hexdraúlico de comida? – Perguntou ela, batendo em sua máquina registradora com suas unhas cor rosa-choque. – Por isso você está gordo assim. É por isso que Piltover está essa desordem! Nossos guardas nem conseguem correr atrás dos trombadinhas! Vou fazer uma reclamação ao seu superior!

                Morag a observou com um olhar cansado. Olhou para baixo. Ele tinha uma barriga saliente. Olhou em um espelho da loja e tinha grandes bochechas rechonchudas. Suas coxas assadas eram um sinal de que tinha pernas excessivamente grossas. Suspirou, fraco demais para retrucar. As reclamações nunca chegavam.

                Saiu da Venda do Velho Explorador em passos lentos. A quantidade excessiva de comida que carregava atrapalhava. Suas costas começaram a doer muito rapidamente. Um  saco de laranjas se rasgou com o peso e elas rolaram pelas ruas de paralelepípedos multicoloridos. Ninguém parou o passo apressado para ajudá-lo a recolher as laranjas e um vendedor de quinquilharias o amaldiçoou, chutando uma das frutas em suas costas. Um grupo de senhoras que passava irrompeu em gargalhadas.

                Comprou a passagem do elevador hexdráulico com um vendedor que o empurrou. Se sentiu uma mula de carga pesada enquanto andava no sentido da multidão apressada. Esperou na imensa fila. Novo elevador hexdráulico parava. Nova multidão entrava. Morag avançava cansado. Finalmente chegou o dele.

                As cadeiras eram sempre estreitas e desconfortáveis demais e ele equilibrou sua bagagem no colo. Um grande homem, com uma grande máscara de respiração o empurrou de um lado. Uma senhorinha carregando dois cachorros o empurrou de outro. Ele se apertou enquanto sentia o elevador descer.

                Olhou pelas janelas, vendo a luz e o céu da tarde uma última vez. O céu de fim de tarde estava sem nuvens e tinha uma bela cor alaranjada. Em breve não haveria nada daquilo a se admirar. Mesmo com a cacofonia das engrenagens do elevador hexdráulico chiando ele adormeceu em um cochilo desconfortável.

                - Acorda! Última parada. – Disse uma voz impaciente. – Última parada!

                Levou cutucadas no ombro. O operador do elevador o olhava aflito, praticamente o empurrando para fora. Ele nunca gostava de ficar muito tempo parado na estação do Sumidouro, a estação mais baixa que o elevador hexdráulico da Rua da Queda ousava ir.


                Morag desceu cambaleando sonolento. O elevador hexdráulico se fechou. Imediatamente ele começou a escalar as grandes vigas de ferro pela qual se movimentava. Sumiu da vista de Morag. Era uma viagem desconfortável mas Morag sempre agradecia por conseguir fazê-la. Por vezes, os Chilreanos danificavam as partes mais profundas do elevador, roubando e vendendo o aço para comerciantes suspeitos. Nesses dias de pouca sorte, ele tinha que descer no Entressol e fazer o resto do perigoso caminho a pé, quando era possível.

                O Sumidouro era um lugar pouco amigável. Não tinha ruas, mas caminhos de tralhas e **bleep** acumulados por todos os cantos. As construções e os objetos jogados nas ruas não eram mais do que semblantes disformes na escuridão devido a total ausência de luz que o local possuía. Foi tropeçando no escuro que Morag avançou cautelosamente.

                Ele tossiu algumas vezes. Nunca se acostumara com o Cinza de Zaun. Pegou seu lenço e o envolveu no rosto, como sempre fazia. Ele odiava o ar do Sumidouro, era como uma mão que o forçava a engolir fumaça grossa e fedorenta pela boca. Sua tosse era constante e eventualmente seus pulmões ardiam.

                Finalmente alcançou seu destino. Uma estreita rua sem saída que desembocava em uma alta parede de tijolos vermelhos e sujos. Quando alcançou metade do percurso, de dentro das construções abandonadas e das latas de **bleep** enfileiradas saíram pequenas figuras que se sacudiam no escuro.

                - Capitão! Capitão! O Capitão chegou!

                Gritaram pequenas vozes. Morag repousou sua carga no chão, dando um suspiro de alívio. Avançou mais um pouco e com o puxão de uma cordinha de ferro acendeu uma velha lâmpada quimtec que espalhou sua luz verde e bruxuleante pelo local.

                - Como vocês estão? – Morag perguntou, e pela primeira vez no dia sorriu. – Eu tive um dia cheio! Muitos criminosos para prender e muitas reuniões com os clãs mercantis. Quase não venho!

                A luz revelou quatro dezenas de crianças do Sumidouro de diversas idades. Tinham cabelos pintados e roupas sujas. Suas faces cobertas de fuligem e carvão, seus jovens pulmões fracos ardendo acostumados ao ar poluído. Usavam bonés e chapéus achados enquanto catavam **bleep** pelo Sumidouro, adornavam seus coletes rasgados com peças de latão e engrenagens enferrujadas. Tinham todas um ar doente e uma pele pálida, mas sorriam e faziam festa pela presença do Vigia de Piltover.

                Ele abriu sua bagagem e começou a entregar pacientemente o que tinha trago para as crianças. Elas improvisavam copos moldando placas de latão que achavam no chão e bebiam a água potável que Morag trazia de Piltover – um recurso praticamente inexistente no Sumidouro -. Sua fome as fazia comer de maneira silenciosa e grata enquanto esmigalhavam o pão e os biscoitos em pequenos pedaços para que durassem mais.

                Quando algum deles se excedia e avançava em uma lata de atum defumado com voracidade, as outras crianças o repreendiam e voltavam a dividir irmãmente. Morag se sentou em um latão de **bleep**, passando seu lenço por sua face suada.

                - Capitão! – Ele ouviu uma pequena voz na multidão. Um garoto deu um passo à frente de mãos dadas com uma garota ainda menor. – Ludmilla não acredita nas suas estórias! Ela não acredita que você seja o Capitão de Piltover.

                - Não acredita? Como assim não acredita? – Morag replicou. – Pois eu vou te contar o meu feito mais memorável! Me rendeu uma página inteira na capa do “O HexJornal da Manhã”! Até hoje eu guardo a medalha que os chefes dos clãs mercantis me deram. Eles ficaram tão impressionados que brigaram entre si para ver quem colocaria a medalha no meu pescoço!

                - Você trouxe a medalha dessa vez? – Perguntou uma criança que sempre lhe pedia que a trouxesse. – Diga que trouxe!

                - Pelos Cofres Elípticos! Eu esqueci! – Disse dando um tapa na testa. – Mas eu trago amanhã! Certamente trago! Agora você quer ouvir a estória de como eu derrotei e prendi o Carrasco da Cidade de Zaun?

                - Foi você? – Perguntou a garota desavisada, arregalando tanto os olhos que quase saltaram das órbitas.

                - Claro que sim! – Retrucou ele com um certo orgulho. – Juntem-se todos porque vou contar uma última vez! Eu estava no meu escritório até que a Xerife entrou. Ela comentou sobre o brutamontes que assolava a cidade de Zaun! Era terrível! Um homem gigante com um olhar cruel que passou a vida substituindo todo o seu corpo por pesado maquinário. Meio-homem e meio-máquina!

                - Ele não temia nem sequer os Barões Químicos! Nem sequer os Clãs Mercantis! E nem sequer os Vigias! – Continuou, inflamando seu discurso. – Mas ele me temeria! Ele temeria o Capitão dos Vigias de Piltover. Sozinho e apenas com os meus punhos eu desci na escuridão de Zaun atrás desse homem nefasto e...

                A narração continuava cada vez mais fantasiosa. De pé, ele fechava os punhos e mostrava como tinha sido sua luta. As crianças mascavam seus últimos pedaços de maçã e descascavam as últimas laranjas. Os olhos brilhantes não piscavam, envoltos na mágica que Morag criara para entretê-las.

                Apenas Ludmilla cruzara os braços e fazia muxoxos constantes. Ela se esgueirou no meio da multidão e apertou o braço de seu amigo.

                - É tudo mentira, Rosiotti! – Sussurrou para ele lançando um olhar incrédulo para os outros. Ela era incapaz de entender como eles acreditavam e riam daquilo. – Esse homem é um mentiroso! É claro que ele não derrotou o...

                - Sssssh! Quieta!

                Morag deu um grito de vitória e todos bateram palmas e riram. Rosiotti aproveitou esse momento para arrastar Ludmilla para um canto escuro. Esconderam-se perto da parede, entre dois latões de metal.

                - É tudo mentira! Eu não entendo como as crianças mais velhas do que eu acham que...

                - É claro que é mentira, Ludmilla! – Rosiotti sussurrou, a interrompendo. – Todos nós sabemos disso! Agora fale baixo!

                Ludmilla o fitou, cerrando os olhos. Não havia entendido. Rosiotti suspirou enquanto apoiou suas mãos em seus pequenos ombros.

                - Nós já fomos visitar ele uma vez em Piltover! Procuramos pelo “Capitão de Piltover” e todos riram da gente! Nós sabíamos que ele não era Capitão nenhum. Mas descobrimos que ele trabalha na parte dos papéis. Ele não vai nem pra rua!

                - Então por que vocês...?

                - Porque ninguém liga pra gente, Ludmilla! Porque quando nós vamos para Piltover todo mundo fica nos olhando como se fossemos roubar alguma coisa! Porque quando a barriga ronca e pedimos comida nós só recebemos pontapés! – Controlou-se para não gritar. – Se lembra do Focinho? Quem ligou pro Focinho quando ele desatou a tossir sangue? Quem ligou pro Focinho quando ele morreu?

                Ludmilla se lembrou do Focinho. E isso quase arrancou uma lágrima dela. Rosiotti se sentou, acomodando-se na escuridão.

                - Ele é a única pessoa que foi gentil com a gente. Foi a única pessoa que nos viu quando a nossa dor era invisível para todo o resto. O único que ligou! – Rosiotti sorriu. – Eu sei que pode parecer meio mentiroso demais mas as mentiras dele fazem a gente sair um pouco desse mundo ingrato. Ele cria essas histórias para nos distrair. Para nos dar alguma esperança. E ninguém tem coragem de falar que sabe que é mentira.

                Ludmilla olhou para Morag. Era óbvio e ela se sentiu tola por acreditar que alguém acreditava. Até as crianças mais jovens do Sumidouro saberiam que aquele homem gordo, usando um uniforme curto demais para suas medidas não poderia ter um cargo tão importante. O Vigia tinha um jeito atrapalhado e bonachão e quando deu socos no ar para simular sua luta não tropeçou por pouco.

                - Eu não me importo com o que as pessoas de Piltover acham, Ludmilla. – Rosiotti se levantou. Seus olhos faiscaram de determinação. – Para mim, ele É o Capitão de Piltover.

                Se entreolharam e Ludmilla soltou um sorriso radiante em sua face suja. Ela estendeu a mão e ele segurou. Andaram juntos até a frente da plateia e brevemente já estavam rindo com os outros. Morag já estava perto do fim.

                O mundo era feio. Feio, escuro e fedorento. Assim era a impressão que os trombadinhas do Sumidouro tinham desde que nasceram. E mesmo quando ascendiam à Piltover por caminhos obscuros ou escondidos embaixo dos bancos dos elevadores hexdráulicos, o mundo continuava feio. A brilhante Cidade do Progresso era apagada, em todo seu esplendor e tecnologia, pelos olhares desconfiados e juízes de seus cruéis habitantes.

                Eles não tinham lugar. Não tinham pátria. Não tinham pais ou mães. Olhavam o mundo com olhos tristes e tudo era estrangeiro. A própria existência era uma condenação ao exílio e ao degredo. Menos com Morag.

                Enquanto ele encenava seu último soco no Crisol da Dor, enquanto contava a bronca imaginária que deu na Xerife de Piltover, enquanto pintava a última cena espalhafatosa o mundo parecia um lugar menos triste. Eles tinham lugar. E seu lugar era ali. Ludmilla entendeu isso.

                - Foi meu último soco! Um soco no queixo muito bem colocado! E aquele homem-máquina caiu para trás. – Morag deu um soco no ar e todos arregalaram os olhos. – “Eu vou fugir e espalharei meu terror por toda essa cidade!” Ele disse da sua boca nojenta. “Eu estarei aqui te esperando!” Eu respondi!

                - E a Xerife?

                - Onde mais? Embaixo da mesa escondida! Uma vergonha! – Deu uma risada. – O restante vocês já sabem! A parte mais chata da aventura! Todo mundo te elogiando, te dando prêmios e puxando seu saco! Eu recusei todos! Eu faço isso por amor à Cidade!

                Os pestinhas do Sumidouro bateram palmas em risadas que encheram o beco. O gordo vigia se curvou como um maestro após uma orquestra. Eles pularam sobre ele e o abraçaram. O encheram de carinho, gratos por suas barrigas cheias de comida e suas almas cheias de alegria.

                - Agora eu tenho que ir! Eu tenho que ir! – Demonstrou uma impaciência fingida. – Amanhã tenho mais aventuras e mais bandidos para prender!

                - Você vai fazer como os guardas lá de cima? – Perguntou uma criança. Tinha gostado do Vigia e em sua voz havia certa emoção. – Como os outros Vigias? Vai tentar nos prender?

                - Meu anjo... – Respondeu Morag com carinho na voz. – Vocês são crianças! Não bandidos. É claro que não!

                Ele consultou seu sempre falho relógio.

                - Agora eu tenho que ir! Pegar o último elevador hexdráulico para Piltover! – Estufou o peito. – O caminho daqui até a Corte Ventazul é longo! E a minha mansão tem muitos quartos! Eu perco um tempão procurando o meu!

                - Quando vai nos levar lá?

                - Em breve! Em breve!

                Acenou com um adeus e todos acenaram para ele. Antes que algum deles viesse atrás, ele saiu apressado e cruzou a esquina. Ele sempre saia assim, de supetão. Não gostaria que nenhum deles o seguisse e constatasse mais uma de suas mentiras. Não vivia em uma mansão tendo como vizinhos os Meddarda ou os Turek. Vivia em um pequeno quarto sujo no Sumidouro, no antigo Distrito das Engrenagens Enferrujadas tendo nada além de ratos como seus hóspedes.

                Tinha um soldo decente como Vigia de Piltover. Conseguiria ter uma vida digna, alugar um bom quarto na Rua das Mil Tavernas ou uma casinha modesta perto da Avenida Sideral. Mas a maior parte de seus ganhos tinha outra destinação.

                Constatou que não tinha sobrado nada de suas compras. Apenas um pequeno pacote de folhas-douro, suficiente para duas xícaras de chá. Dormiria com fome mais uma vez e sonharia com as dozes horas do dia seguinte; quando o almoço dos Vigias era bem servido em um espaçoso refeitório. A fome sempre o fazia comer demais nessas ocasiões e o comer demais sempre fazia seus colegas julgarem seu peso e estatura.

                Não pensou mais nisso. Assoviou alguma música enquanto se equilibrava na escuridão, subindo e descendo montes de sujeira e metal. Pareceu feliz.

Por um momento, ele realmente acreditou que poderia ser um herói.

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